sexta-feira, 23 de setembro de 2022

 


 

Poema 2022 / 3

15 janeiro 2022

Descobri que estava a fazer poesia

quando, ainda menino, disse palavras mágicas 

para flores que mantiveram seu silêncio,

como anjos que me vigiavam.

 

Quando desenhei luas e estrelas

no vão das conversas.

 

Quando, para iluminar a sombra da noite, 

imaginei vestir-me de vagalume.

 

Quando construí um voo de pedra sobre o lugar

 em que estavam nossos frágeis sonhos.

 

Quando mergulhei nas águas rasas dos ribeiros 

e me encontrei nas águas profundas do pensamento de menino.

 

Quando me deixei ser ensinado por pássaros e aves nas tardes à beira dos rios.

 

Quando o tamanho do mundo não importava diante da presença da amada.

 

Quando uma palavra da amada era mais bonita que um vaso de flor na janela.

 

Agora eu sei. Sou poeta quando no território da dor, 

no atrito do açoite, ainda percorro os passos da infância.

 

 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

 


 

15 / 09 /  2022

LIÇÃO SOBRE POESIA I

 Alguém disse que certas palavras

servem para poesia.

Servem para escrever versos,

servem para frases bonitas no papel.

Palavras possuem peso e magia.

Possuem o peso de uma nuvem num céu anverso.

 

Quem há de saber este milagre?

Quem há de festejar as notícias do poema?

 

Quem abrirá o livro e dirá:

- Bendito o que nos envia este bálsamo!

 

- Bendito o que nos convida a apreciar

as miudezas , as coisas singelas,

com o mesmo peso com que

apreciamos as estrelas!

 

Bendito o homem que sonha,

Bendito o homem que acredita,

o que escreve, o que lê e o poeta

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

 

ENTREMEIOS

 

Existe uma distância entre

o músculo e o coração, entre a memória e a dor.

Existe uma miséria entre

a vida e a paixão, entre lembranças e o amor.

 

Existe uma dúvida entre

a palavra e o silêncio, entre a lua e a canção.

Existe um tropeço entre

o encanto e o dissabor, entre a fábula e a razão.

 

Existe um desfeito entre

a esperança e o temor, entre o homem só e a multidão,

Existe um desvio entre

o vento, a nuvem e o chão, entre ser poeta e ser razão.

 

Existe um dilema entre

a palavra e o refrão, entre o poema e o feijão.

Existe um silêncio entre

o verso e a canção, entre saudade e a solidão.

 

02 / 9 / 1993


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

 



LIÇÃO DE SETEMBRO

15 / 9 / 1989

Em tardes tão azuis, antes de setembro,

as árvores, a maioria parecem tristes,

tão nuas, sem folhas, todas na solidão.

São as paisagens de agosto que me lembro.

 

Mas ao entrar a primavera, que alegria!

Quanta vida, folhas novas em rebentação.

A vida renasce nas árvores em floração,

compensando os dias e meses de nostalgia.

 

Não deveríamos nós, também sermos assim,

nos momentos de amargura e tristeza

termos uma lembrança da flor do jasmim

e da rosa em botão, da vida e da beleza.

 

Poderíamos ser uma eterna lembrança

que depois de uma noite tenebrosa e sombria,

surge o despertar de mais um claro dia,

e que depois da tempestade vem a bonança.


terça-feira, 12 de julho de 2022

 


 

“O espanto de viver

é ir vivendo.” Carlos Nejar


 

O espanto de escrever é descobrir a escrita. Escrevo porque vivo.

 

A alma do verso está na caligrafia e seu armazém de esperança.

Vivo porque escrevo

 

A alegria do poeta está na cifra oculta de sua canção. Canto porque existo.

 

O alcance do verbo perpetuar está no suprimento de vozes entre as palavras. Perpetuo tua voz.

 

A clareira aberta no poema está na linguagem das coisas ainda sonhadas. Sonho porque vivo.

 

Invento um encontro de coisas que nascem na palavra perpetuar

 

O espanto de viver é a esperança, o início de uma nova primavera.

 Poema 2022 / 25

11 de julho de 2022